Um rei sem trono
- Mara Cornelsen

- 9 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Era uma vez...
...sempre desejei começar uma história assim. Com o magnífico "era uma vez" que lia desde a minha primeira infância nas histórias de fadas, príncipes e princesas. Mas, como não conheci alguém que se enquadrasse nestes títulos de nobreza e também não tive o enorme prazer de conhecer pessoalmente uma fada (por motivos óbvios), fiquei sem iniciar um texto desta forma. Ou melhor, tinha ficado!
Lembrei de uma antiga história, envolvendo um rei, muito famoso nas décadas de 1960, 70 e 80, que perambulava pelas ruas de Curitiba. Sendo assim, peço licença aos místicos e nobres e inicio o relato com...
Era uma vez...
...um belo homem, de educação refinada, gestos comedidos, fala mansa e grande inteligência. Nós nos encontramos pela primeiro vez no pátio da antiga Delegacia de Furtos e Roubos, que ficava na Avenida Iguaçu, no bairro Rebouças. Ele já era bem idoso, mas mantinha a pose de lorde, apesar do terno branco puído e encardido, dos sapatos gastos e das mãos trêmulas pela idade. Eu iniciava minha carreira como jornalista da área policial e ele estava praticamente encerrando a sua de o "malandro" mais conhecido da cidade.
Não lembro o nome dele. Mas, o apelido que o deixou famoso era "Rei do Palito". Aquela figura de cabelos bem branquinhos e reluzentes olhos azuis me tratou como uma princesa, fazendo reverência e beijando minha mão. Era um craque no jogo de palito, praticamente um ilusionista que enganava suas vítimas guardando palitos de fósforos nas mangas do paletó e assim ganhava todas as apostas de maior valor que fazia com incautos, arregimentados ao perambular pela Rua das Flores e ao se encostar nos cafés da Rua XV.
Vale lembrar que o jogo de palitos era simples. Duas ou mais pessoas pegavam três palitos de fósforos e os guardavam na mão. Com as mãos nas costas deixavam um, dois ou três na mão direita, para apresentá-la aos demais competidores. Ganhava quem acertava o número total de palitos apresentados. No início, como em praticamente todos os golpes, os valores eram ínfimos, e o "Rei do Palito" deixava os adversários ganharem. Na medida que as apostas aumentavam, ele colocava seu talento em prática e ganhava todas as apostas.
Assim viveu ao longo dos anos, dos ganhos nos palitos e outros pequenos delitos, como furtos de relógios ou carteiras. Bastava cumprimentar alguém e já saía com o objeto de seu desejo no bolso. E fazia isso sorrindo, conversando, sendo muito simpático. Jamais usou de violência. Sua fama atravessou o tempo, tanto que quando me foi apresentado na delegacia, colegas jornalistas e policiais alertaram para tomar cuidado com anéis, pulseiras, relógio e correntinhas, além da carteira, é claro!
Com a idade ele foi perdendo a agilidade e a fama. Os tempos eram outros e a pobreza bateu em sua porta. Nos anos 80s já mendigava trocados para tomar um café ou comprar um almoço. Às vezes sumia por algum tempo e quando reaparecia contava que tinha ficado doente e hospitalizado.
Em outras ocasiões revelava que havia ficado preso em algum distrito policial da cidade. Já em fim de carreira, quando o inverno se aproximava, ele costumava aprontar alguma (como quebrar uma vitrine de loja chique, danificar um carro estacionado na rua) e ele mesmo chamava a Polícia Militar e se apresentava como autor do delito, só para ser preso. "Na cadeia tenho cama e comida de graça", dizia sem constrangimento. "É o que me restou pela vida que vivi", conformava-se.
Um dia ele simplesmente sumiu. Deixou apenas a lembrança de um vigarista simpático, doce, quase inofensivo. Um "rei" sem trono e sem nobreza, mas que mereceu ter sua história contada com o enigmático e encantador "era uma vez..."




Prima um Rei sem Trono, que talvez não tenha sido Rei nem na família, nem entre os amigos mais próximos mas que mereceu de ti essa crônica pois teve uma vida errada e que sabia ser errada mas ao contrário das pessoas infelizes, que espalham infelicidade ao seu redor, e são candidatas a terminar seus dias em solidão, se não mudarem seu estilo de vida antes que seja tarde demais, ele teve uma maneira de ser que mesmo errada conquistava por sua alma meio infantil que errava escondendo a mão que tomava o desejado, e não se escondia atrás de si mesmo mas de um modo avesso tinha orgulho por ser tão capaz de enganar e ao mesmo tempo nunca…